sábado, 28 de maio de 2011

FILMES RECOMENDADOS PELO SAINDO DA MATRIX

O QUE ACONTECE DEPOIS DA MORTE:




Ghost - Do outro lado da vida

Sexto Sentido

Falando com os Mortos

Os outros

Amor além da vida

Além da Eternidade

Nosso Lar

Chico Xavier





ABRINDO SUA MENTE:



The Matrix

A Origem

Clube da Luta

K-Pax

Contatos imediatos do 3º grau

Vanilla Sky

Network

Metropolis

13º andar

Cidade das sombras

V de Vingança





FILOSOFIA E REFLEXÃO:



Gattaca

Waking life

Sonhos (de Kurosawa)

Dersu Uzala

Ran

Contato

O Show de Truman

Magnólia

O nome da rosa

Gandhi

2001: Uma odisséia no Espaço

A última tentação de Cristo

O Labirinto do Fauno

Ensina-me a viver

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera

Blade Runner

O Senhor dos Anéis

Poder Além da Vida (Peaceful Warrior)





APRENDENDO E SE DIVERTINDO:



Jesus Cristo Superstar

Feitiço do Tempo (Groundhog Day)

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Wall-E

Guerra nas estrelas: O Império Contra-Ataca

Exterminador do Futuro 2

Batman: O Cavaleiro das Trevas

Avatar

TRON: O legado



FILMES BARRA-PESADA (obsessão, umbral, etc):



Drácula (de Bram Stocker)

Gin gwai ("The Eye - A Herança", original asiático)

Ju-On ("O Grito")

Shutter ("Espíritos - A Morte Está a Seu Lado")

The ring ("O chamado", tanto o inglês como o original asiático)

A Cela

Ensaio sobre a cegueira

Hellraiser

Advogado do Diabo

O Exorcista

O Iluminado

A scanner darkly



DOCUMENTÁRIOS:



Zeitgeist (Manipulação política)

Janela da Alma (Percepção de mundo)

Fahrenheit 9/11 (Atentado às torres gêmeas)

No End in Sight (Guerra do Golfo)

BBC: Universos Paralelos (Física quântica de verdade)

What The Bleep Do We know (Metafísica "quântica")

Quem somos nós? (Metafísica "quântica")

Tiros em Columbine (Armas)

Sicko (Saúde)



POST DE SAINDO DA MATRIX

sábado, 21 de maio de 2011

A Concentrção da Midia

Este post  mostra como e onde a mídia está concentrada nas mãos de famílias que também controlam a política. Comecemos pelos EUA:




GENERAL ELECTRIC

Doou 1.1 milhão de dólares pra campanha de G. W. Bush em 2000



Controla:

A NBC (TV aberta) e MSNBC (cabo e provedor de internet), esta última em parceria com a Microsoft (que doou 2.4 milhões de dólares pra campanha de G. W. Bush em 2000).

Ações dos canais Bravo (50%), A&E (25%), History Channel (25%).

Universal Studios (estúdio de cinema)



Outros investimentos:

GE Eletrônicos.

Turbinas pra aviões e reatores nucleares.





WESTINGHOUSE

Seu diretor Nº 1 é Frank Carlucci (do grupo Carlyle)



Controla:

CBS (TV aberta)



Outros investimentos:

A Westinghouse Electric Company presta serviços à indústria de energia nuclear.





VIACOM INTERNATIONAL INC.

Uma divisão da Westinghouse/CBS



Controla:

Paramount (estúdio de cinema)

MTV, VH-1 (canais de música para jovens)

Nickelodeon, Comedy Central

Flix, Blockbuster Video (distribuição de filmes)



DISNEY

Doou 640 mil dólares pra campanha de G. W. Bush em 2000



Controla:

ABC (TV aberta)

ESPN (esportes)

Miramax, Buena Vista, Caravan, Marvel Pictures e Touchtone Pictures (estúdios de cinema)

Ações minoritárias dos canais A&E, History Channel and E! e TiVo

O império Disney, claro.

3 selos musicais

11 jornais locais

66 estações de rádio

Hyperion (editora de livros)

3 revistas

Editora Marvel (quadrinhos)

Infoseek (buscador de internet)

Oscar.com, NBA.com e NASCAR.com



Outros investimentos:

É grande parceira de Sid R. Bass na produção de petróleo cru e gás natural.

Parceira da Hearst Corporation e General Electric (GE) em 12 canais a cabo e 13 canais fora dos EUA





TIME-WARNER

Doou 1.6 milhões de dólares pra campanha de G. W. Bush em 2000



Controla:

America Online (AOL) (Provedora de Internet)

CNN, HBO, Cinemax, Cartoon Network, Comedy Central (50%), E! (49%), TNT

Warner Brothers, New Line Cinema, Castle Rock (estúdios de cinema e TV)

Looney Tunes, Hanna-Barbera (desenhos pra TV, como Tiny Toons e Pernalonga)

Atlantic, Elektra, Rhino, Sire, EMI, WEA (A Time-Warner é a maior companhia de música do mundo, com 49 empresas)

58 revistas, incluindo a Time, Sports Illustrated, People, Fortune, DC Comics (50%) e MAD

Amazon.com



Outros investimentos:

Nos esportes: The Atlanta Braves, The Atlanta Hawks, World Championship Wrestling





NEWS CORPORATION LTD.

Controlada por Rupert Murdoch

Através da Philip Morris, doou 2.9 milhões de dólares pra campanha de G. W. Bush em 2000



Controla:

Fox (TV aberta)

National Geographic channel, FX

Fox International: estações via satélite que incluem a Sky Broadcasting (Inglaterra); VOX (Alemanha); Canal Fox (América latina); FOXTEL (Austrália); STAR TV (Ásia); IskyB (Índia); Bahasa Programming Ltd. (Indonésia) e News Broadcasting (Japão)

Twentieth Century Fox, Fox Searchlight (estúdios de cinema)

132 jornais (113 só na Austrália), incluindo o New York Post e o London Times

25 revistas

HarperCollins (Editora de livros)



Outros investimentos:

Philip Morris USA (braço da multinacional de cigarros)

Esportes: LA Dodgers, LA Kings, LA Lakers, National Rugby League

2 companhias aéreas australianas





Agora você sabe porque qualquer tentativa de investigar à fundo os atentados de 11 de setembro esbarram em silêncio ou descrédito da mídia. Este é um quadro perturbador, com efeitos DIRETOS em todo o mundo (já que todos consomem o american way of life e seus artistas direta ou indiretamente, seja pela TV, shows ou Internet).



No Brasil o quadro não é diferente. Segundo artigo de Marco Aurélio Weissheimer, no "Carta Maior":



O poder midiático no Brasil se concentra nas mãos de algumas poucas famílias e empresas. O maior grupo de comunicação do país, a Rede Globo, possui 227 veículos, entre próprios e afiliados. É o único dos grandes conglomerados que possui todos os tipos de mídia, a maioria dos principais grupos regionais e a única presente em todos os Estados brasileiros. A indústria televisiva domina o mercado da publicidade, detendo cerca de 56,1% de suas verbas. Em segundo lugar vêm os jornais, com 21,5%, as revistas com 10,6% e as rádios com 4,9%. Todos os outros veículos somados chegam a 6,9% do mercado publicitário. Sozinha, a Rede Globo detém mais da metade do mercado televisivo brasileiro.

Além do imenso poderio da Globo, outros seis grandes grupos regionais se destacam. A família Sirotsky comanda a Rede Brasil Sul de Comunicações (RBS), controlando o mercado midiático no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A família Jereissati está presente no Ceará e em Alagoas. A família Daou tem grande influência no Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. A mídia da Bahia pertence à família Magalhães. No Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os negócios são controlados pela família Zahran. E, por fim, a família Câmara tem grande influência em Goiás, Distrito Federal e Tocantins. Segundo dados da Associação Nacional de Jornais, relativos ao período 2001-2003, apenas 6 grupos empresariais concentram a propriedade de mais da metade da circulação diária de notícias impressas no país. Sozinhos, estes veículos respondem por cerca de 55,46% de toda produção diária dos jornais impressos.





Ele esqueceu o Maranhão, que é dominado pela família Sarney.



Na Itália temos Silvio Berlusconi (pesquisem).



Perceberam a conexão mídia/política? Então antes de encher a boca pra falar do PIG, ou da mídia golpista, pense nas ligações dessas famílias, de vários partidos que aparentemente "brigam" entre si, mas sempre mantendo seus feudos e seus interesses. São 133 parlamentares que possuem alguma ligação com empresas de comunicação, sejam eles donos ou tendo um parente como dono. Coincidência? Não. Nem o almoço da Dilma com Lili Marinho.



V - Discurso.



Este post é dedicado ao deputado Paulo César (PR-RJ), que 2 meses depois de aprovar um aumento de 61% pra ele mesmo, resolveu defender o não-aumento do salário mínimo pra R$ 600 com o brilhante argumento: graças ao governo "Todo trabalhador pode ter seu telefone celular, seu computador, sua televisão de plasma", podendo, assim, esperar um ano pra ter um salário de R$ 612 reais (WOW!).



Telefones, computadores e televisões... mídia, tudo o que nós precisamos pra continuar vivendo!




SAINDIO DA MATRIX

o excesso de informação nos torna idiotas

Quando o escritor norte-americano Nicholas Carr começou a pesquisar se a internet estava arruinando nossas mentes, assunto de seu novo livro, ele restringiu seu acesso à internet, deu um tempo no e-mail e desligou suas contas no Twitter e no Facebook.




Em seu novo livro The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains, ele diz que a rede está nos privando da capacidade aprofundada de raciocínio.



Carr levantou em 2008 a questão controversa de que "o Google estaria nos deixando idiotas" e decidiu aprofundar sua pesquisa sobre como a rede afeta nosso cérebro. Seu livro examina a história da leitura e a ciência de como o uso de diferentes mídias afeta nossa mente. Explorando como a sociedade passou da tradição oral para a palavra escrita e depois para a internet, ele detalha como nosso cérebro se reprograma para se ajustar às novas fontes de informação. Ler na internet mudou fundamentalmente a forma como usamos nosso cérebro.



A quantidade de textos, fotos, vídeos, músicas e links para outras páginas combinada com incessantes interrupções na forma de mensagens de texto, e-mails, atualizações do Facebook e feeds de RSS fez com que nossas mentes se acostumassem a catalogar, arquivar e pesquisar informações. Desta forma, desenvolvemos habilidades para tomar decisões rapidamente, especialmente visuais. Por outro lado, cada vez lemos menos livros, ensaios e textos longos – que nos ajudariam a ter foco, concentração, introspecção e contemplação. Ele diz que estamos nos tornando mais bibliotecários – aptos a encontrar informações de forma rápida e escolher as melhores partes – do que acadêmicos que podem analisar e interpretar dados.



A ausência de foco obstrui nossa memória de longo prazo e nos torna mais distraídos. "Nós não nos envolvemos com as funções de interpretação de nossos cérebros", diz. Ele ainda afirma que, por séculos, os livros protegeram nossos cérebros de distrações, ao fazer nossas mentes focalizarem um tema por vez.



Mas com aparelhos como o Kindle e o iPad tornando-se comuns, Carr prevê que os livros também mudarão. "Novas formas de leitura requerem novas formas de escrita".



Se escritores suprem a necessidade crônica de uma sociedade distraída, eles inevitavelmente evitarão argumentos complexos que requerem atenção prolongada e escreverão de forma concisa e aos pedaços, Carr prevê. Ele inclusive sugere um exercício para aqueles que sentem que a internet os tornou incapazes de se concentrarem: diminuam o ritmo, desliguem a web e pratiquem habilidades de contemplação, introspecção e reflexão.



É bem claro pelo que já sabemos sobre a ciência do cérebro que, se você não exercita habilidades cognitivas específicas, você acaba as perdendo. Se você se distrai facilmente, não pensará da mesma forma que pensa se você presta atenção

(Nicholas Carr)



Cientistas dizem que fazer malabarismo com e-mail, celular e outras fontes de informação muda a maneira como as pessoas pensam. Nossa concentração está sendo prejudicada pelo fluxo intenso de informação. Esse fluxo causa um impulso primitivo de resposta a oportunidades ou ameaças imediatas. O estímulo provoca excitação - liberação de dopamina - que vicia. Na sua ausência, vem o tédio.



Enquanto muita gente diz que fazer várias coisas ao mesmo tempo aumenta a produtividade, pesquisas mostram o contrário. As multitarefas dificultam a concentração e a seleção necessárias para ignorar informações irrelevantes. E mesmo depois que a pessoa se desliga, o pensamento fragmentado continua.



Para estudiosos de Stanford, a dificuldade de se concentrar só no que interessa mostra um conflito cerebral, que vem da nossa evolução. Parte do cérebro age como uma torre de controle, ajudando a pessoa a se concentrar nas prioridades. Partes primitivas, como as que processam a visão e o som, querem que ela preste atenção às novas informações, bombardeando a torre de controle. Funções baixas do cérebro passam por cima de objetivos maiores, como montar uma cabana, para alertar sobre o perigo de um leão por perto. No mundo moderno, o barulho do e-mail chegando passa por cima do objetivo de escrever um plano de negócios ou jogar bola com o filho.



Mas outras pesquisas mostram que o cérebro também se adapta. Usuários de internet têm mais atividade cerebral do que não usuários. Eles estão ganhando novos circuitos de neurônios. Isso não é necessariamente bom, porque não significa que estamos nos tornando mais inteligentes. Nossas crianças nascem sabendo programar o microondas e mexer nas configurações da TV, mas ao crescerem terão menos senso crítico e independência que as outras gerações. Estarão TERRIVELMENTE acostumadas a terem tudo pronto, mastigado, desde a pipoca de microondas até as notícias que recebem. Ficaremos parecidos cada vez mais com os gordinhos do filme Wall-E, imersos na informação de tal ponto que falarão com os colegas DO LADO via MSN (e isso já acontece nas empresas!). Com as relações sociais tradicionais sendo destruídas e trocadas por uma virtual, quem detiver o controle dos meios de tráfego virtual controlará as relações sociais. E vocês acham que os governantes já não sabem disso? Por que será que Obama teve uma reunião com todos os donos dos "corredores de informação"?



A música também é uma forma de induzir a mudanças no cérebro. Ajuda a manter o "gado", tão interessante para quem controla as engrenagens.



Um estudo foi conduzido por cientistas em um grupo de ratos para estudar os efeitos da música rock. O grupo de ratos que foi exposto à música rock foi ficando progrssivamente mais desorientado em testes, e por fim se tornaram incapazes de completar o labirinto. Quando os cérebros destes ratos foram dissecados, verificou-se que eles foram submetidos a mudanças estruturais anormais. Os neurônios em seu cérebro (em especial na região do hipocampo, que é conhecido por ser importante na aprendizagem e na formação da memória) cresceram de forma descontrolada em todos os sentidos, sem fazer conexão com outros neurônios. Aumentos significativos no RNA mensageiro, que está envolvido na formação da memória, também foram encontrados. Eu achei essa notícia um pouco exagerada, e por não ter o NOME dos pesquisadores, resolvi pesquisar mais e encontrei o seguinte:



O estudante David Merrill repetiu a experiência e chegou a conclusões parecidas, mas não pôde ir muito longe pois os ratos que ouviam rock mataram uns aos outros. O estudo de G. M. Schreckenberg e H. H. Bird (1988) demonstra que ratos expostos a música desarmônica (ou seja, sem harmonia) desenvolveram danos nos nervos cerebrais e "degradação do comportamento".



Ou seja, a configuração do cérebro vai mudar SIM, especialmente se forem expostas crianças a isso (como vimos no começo do documentário Zeitgeist: Moving Forward). Nos EUA e no Brasil 20% das crianças sofrem algum tipo de distúrbio mental, enquanto 5 MILHÕES de crianças e adolescentes nos EUA sofrem de distúrbio mental GRAVE.



Não é minha intenção culpar o rock - até porque eu gosto e acho que é apenas UM aspecto do problema - mas sim a exposição a um determinado tipo de som. Ele muda dependendo do país e grupo social, mas somos BOMBARDEADOS por tipos de som cuja semelhança entre eles é ser estressante, percussivo ao extremo e longe de qualquer harmonia. Cada vez mais nossas "musas" e "musos" pop vão promovendo sons mais e mais bizarros, longe do tipo de música que nos cativou no começo de suas carreiras e chegando muito próximo dos sons que são usados pra simular drogas (e não creio que seja uma mera coincidência). Me chamem de teórico da conspiração se quiserem, mas não deixem de meditar no que leram, e observar com certo distanciamento as "informações" que pipocam ao seu redor.



SAÚDE



Passar mais de quatro horas por dia em frente à televisão aumenta o risco de sofrer doenças cardiovasculares e inclusive o de morrer, revela um estudo divulgado hoje pela imprensa australiana.



A probabilidade de sofrer doenças cardiovasculares é 80% superior a de quem passa menos tempo, e a de morrer aumenta 46%. Até porque ver TV engorda.



Concretamente, cada hora em frente a uma televisão representa um risco de morte 11% maior, de acordo com a pesquisa realizada com 8.800 pessoas e divulgada na publicação científica "Circulation: Journal of the American Heart Association". O cientista David Dunstan afirmou que o problema é causado pela falta de mobilidade, que impede que o organismo processe de maneira adequada açúcares e gorduras. Não importa que se façam exercícios diários - o dano vem do tempo prolongado que se passa sentado diante de uma tela, segundo Dunstan.



As 8.800 pessoas pesquisadas, entre 25 e 50 anos de idade e que se uniram ao projeto entre 1999 e 2000, realizavam entre meia e uma hora de exercícios diários e, no entanto, 284 morreram em seis anos.



Dunstan indicou que a pesquisa enfocou particularmente os casos de gente que vive junto à televisão, mas as conclusões são aplicáveis a qualquer outra atividade sedentária, como as pessoas que passam o dia jogando computador. O pesquisador lembrou que "o corpo humano foi feito para se movimentar".




Três em cada quatro norte-americanos serão obesos em 2020. Você não vê esse padrão de beleza na mídia, vê?



Assim como os passageiros de Wall-E, não temos interesse no mundo que nos cerca, nem no que nos reserva o futuro. Não enquanto tivermos distração suficiente pra preencher nossos dias vazios e "modelos" pra satisfazer nossos desejos por nós. Quem é a mão que nos "alimenta"? Quem manda no "capitão" desse navio? Pretendo fazer um post sobre os efeitos do que comemos e bebemos diariamente, e como as grandes indústrias estão por trás de um lento envenenamento que nos torna fracos, doentes, estúpidos e favorece o lucrativo comércio dos remédios e planos de saúde.





Fontes:

Ver TV eleva risco de morte;

Concentração e distração;

Abuso de aparelhos eletrônicos provoca conflito cerebral

METRÓPOLIS...FRITZ LANG

Metropolis foi o filme mais caro de sua época, e um marco do expressionismo alemão. Durou quase 1 ano e meio pra ser feito e envolveu cerca de 37 mil extras. Dirigido por Fritz Lang e escrito por ele e Thea von Harbou (esposa de Lang), mostrava um futuro distópico que influenciou gerações de escritores e cineastas até hoje, e deu fruto a filmes, jogos e livros como 1984, Blade Runner, Robocop, Final Fantasy 7, Bioshock, Bastardos Inglórios, o movimento Steampunk, o cinema Noir, entre outros.


O filme estreou em grande estilo, em 1927, em Berlim. O marechal von Hindenburg estava presente à estréia, assim como a nata da sociedade alemã. Apesar da boa reação da estréia e da crítica, o filme foi um fracasso de público e bilheteria, quase afundando a produtora. Muitos acharam o filme longo demais, então ele foi severamente cortado para distribuição no resto do mundo. O filme se tornou cult, mas a versão original ficou perdida para sempre, e durante décadas achamos que nunca mais veríamos Metropolis como fora planejado. Mas eis que em 2008 (isso mesmo, 80 anos depois!) foi encontrada uma cópia do original em péssima qualidade, na Argentina. Fizeram então a versão definitiva, lançada no final de 2010, juntando as melhores partes restauradas de cada cópia que puderam encontrar pelo mundo, e o resultado salta aos olhos. Quem (como eu) viu a versão de Giorgio Moroder - feita em 1984 com uma trilha sonora futurista - vai achar que está vendo outro filme, e de óculos, pois a imagem está nítida.

SINOPSE



Num mundo futurístico - que é a extrapolação da revolução industrial - a sociedade vive em uma verdadeira metrópole não muito diferente da nossa (com direito até a engarrafamentos!). Porém ela está rigidamente dividida em duas grandes classes: Os cidadãos na cidade superior, curtindo o melhor que a tecnologia pode proporcionar em termos de transporte e diversão, e embaixo os operários, vivendo numa cidade subterrânea com suas famílias e trabalhando 10 horas por dia em condições terríveis para manter as máquinas que fazem com que as regalias da cidade superior não parem nunca.



Comandados de cima pelo industrial frio e calculista Joh Fredersen, esses operários-escravos vivem uma vida de trabalho duro, e pipocam aqui e ali planos de revolta dos trabalhadores. Essa revolta é aplacada por Maria, uma mulher simples da classe trabalhadora, que com seu encanto prega a compreensão e o amor aos "irmãos" da cidade alta, e lhes promete que um dia chegará um mediador vindo do "alto" que supostamente lhes dará melhores condições de vida (embora isso não seja dito). Esse mediador acaba sendo o filho do industrial Fredersen, Freder, que ao se apaixonar por Maria resolve descer à cidade subterrânea e se comove com a vida dos operários, decidindo até mesmo trocar de lugar com um deles pra se aproximar de Maria.



Entretanto, Joh Fredersen descobre que Maria exerce grande influência nos trabalhadores e resolve, com a ajuda de Rotwang (uma espécie de cientista maluco), raptá-la e trocá-la por uma réplica perfeita - um robô - e assim incitar a revolta de forma desordenada entre os trabalhadores, dando motivos para o poder público usar a violência de forma "justificada" e assim aniquilar qualquer pretensão legítima dos trabalhadores.



Antes de botar o plano em prática, Rotwang (que também usa magia negra) resolve testar a falsa-Maria entre os 100 mais ricos de Metropólis, manipulando-os através do entretenimento e da luxúria. Uma vez corrompida e controlada a burguesia, é hora de incitar os trabalhadores a se rebelar e quebrar as máquinas. Pregando o ódio, a falsa-Maria cega os trabalhadores para o alerta de Freder (a esta altura misturado aos trabalhadores) de que a verdadeira Maria nunca diria isso, e para o fato de que a quebra das máquinas prejudicaria mais aos trabalhadores e suas famílias do que as pessoas de cima.



Inconsequentemente, os trabalhadores quebram a máquina principal - com a conivência de Joh Fredersen, no que me lembrou muito o 11 de setembro - mas esquecem suas crianças na cidade subterrânea, que começa a quebrar e ser inundada pelas águas. O clímax do filme eu não vou contar, até porque não importa na análise, mas no fim chega-se a termos entre a cabeça (Joh Fredersen) e as mãos (Os trabalhadores) através do coração .

ANÁLISE

Podemos tirar várias "lições" do filme, e ver claramente a recriação do mito cristão do Salvador com aspectos gnosticistas. O Demiurgo é o industrial Joh Fredersen, criador de Metrópolis, que no começo do filme pode ser visto com um compasso na mão (Arquiteto do Universo). O filho dele é o Salvador, o eon Christós, que literalmente DESCE ao plano de existência dos necessitados para trazer auxílio e esperança. Maria é a profeta que pregava a vinda do Salvador, mas também é o aspecto feminino do mesmo, a Anima (a luz nas trevas, enquanto prega nas catacumbas, como os primeiros cristãos), mas que se converte na Sombra (a falsa-Maria) através da ganância, manipulação e maldade, representadas pela ciência/conhecimento/magia à serviço de um monopólio (simbolizando o anti-natural, o maquinal, o estafante e o opressor, tirando a humanidade das pessoas). Na Gnose o povo eleito do Demiurgo são os judeus, e é impossível não notar que o cientista tem por toda a sua casa o símbolo do pentagrama em todas as portas (lembrem-se, essa era a Alemanha 6 anos antes de Hitler chegar ao poder, e o caldeirão de despeito e ódio aos judeus já estava em ebulição em várias partes da Europa). Esse antisemitismo disfarçado estava mais na mente da autora do que do diretor, pois em 1933 ela se tornou uma nazista devotada, enquanto Lang - que não era simpatizante do regime (sua mãe era judia convertida) - acabou o casamento e fugiu da Alemanha para Paris, onde chegou a dirigir filmes anti-nazistas, para então refugiar-se nos EUA, onde continuou sua carreira de diretor e ajudou a criar o estilo cinematográfico "cinema noir".



Vemos também uma pitada de Hermetismo tanto no texto que apresenta a cidade como na disposição visual do mesmo, que começa com uma pirâmide e termina com outra pirâmide invertida, lembrando o aforismo "O que está em cima é análogo ao que está em baixo", ambos os lados com líderes e massas manipuláveis.



Na revolta contra as máquinas percebe-se que a massa, instigada por uma figura carismática (a falsa-Maria, em quem confiavam) ficou cega para o verdadeiro foco do problema (tratamento sub-humano e segregação social) e para as consequências de seus atos, e assim quase sacrificou seu futuro (representado pelas crianças). É irônico perceber que a sociedade alemã (e a própria autora) cairia poucos anos depois nesse truque e sacrificaria, de bom grado, toda uma geração de jovens e adolescentes na guerra.



O final é ambíguo. Parece sinalizar uma oportunidade de melhores condições de vida para os trabalhadores (através do mediador), mas também pode ser lido como um engodo, uma solução pacífica para manter o status quo: a figura do intermediário, a mídia, apelando para os sentimentos. Infelizmente é a leitura cínica do final que prevaleceu na cartilha dos poderosos, que utilizam Metropolis como um guia para nos manter sedados, oprimidos e sem voz, com ocasionais "líderes de fachada" que parecem ter vindo da classe trabalhadora, mas que no fim só representam os interesses da burguesia.
DESIGN



O design do filme e seus personagens marcaram o mundo do cinema, e consciente ou inconscientemente suas imagens inspiraram centenas de filmes, capas de revistas, discos e games até os dias de hoje.


A arquitetura de Metropolis influenciou não só "Blade Runner"...


...como a Gotham City de "Batman Begins", com seus monotrilhos


Notem as tiras no corpo de Leeloo ("O quinto elemento") e Maria. Ambas estão em um tubo de vidro



A família reunida: C3PO, Maria e Robocop




Rotwang perdeu a mão enquanto criava o robô - uma alusão ao preço que se paga pelo poder do mal - e a substituiu por uma prótese mecânica. O personagem do filme de Kubrick, "Dr. Strangelove", é uma homenagem a Rotwang, assim como George Lucas o fez em "O Retorno de Jedi", quando Luke Skywalker olha pra mão mecânica (coberta com a mesma luva preta) e percebe que está sendo tomado pelo lado negro da Força




O filme "As Panteras" homenageou Metropolis incorporando um personagem do filme, o vilão conhecido apenas como "Thin-Man" (homem magro). Como é um personagem de cinema mudo, ele simplesmente não fala!

Dr. Brown ("De volta para o futuro") possui uma clara inspiração no Rotwang, cuja atuação exagerada (caracteristica do expressionismo alemão) se perpetua como o registro definitivo do cientista louco

Princesa Amidala, do filme Star Wars Ep. I, quando está disfarçada de camponesa/trabalhadora usa esta coisa na cabeça

Janelle Monáe fez dois álbuns inspirados em Metropoli


O Kraftwerk fez uma música chamada "Metropolis" (do album "The Man machine") que sincroniza com os primeiros minutos do filme:

Assasino de Realengo

Embora a conclusão pareça chocante ou pedante, é preciso encarar com frieza a situação em que nos encontramos e separar o joio do trigo. Existem denominações cristãs que se baseiam fundamentalmente no Velho Testamento. Como já disse aqui, é mais fácil de arranjar desculpas pra o dízimo no Velho Testamento. O problema é que, enquanto o Velho Testamento é estudado com afinco e cuidado pelos judeus (de preferência em HEBRAICO, a língua original), preservando muito mais uma interpretação espiritual do que uma literal, os nossos cristãos são exatamente o oposto: incultos quanto ao significado histórico e social do que lêem, vítimas das interpretações distorcidas dos pastores (que ficam usando frases aleatoriamente em contextos diversos) e profundamente impressionáveis. São presas fáceis do fundamentalismo.




O assassino usou em sua carta de despedida termos como "impuros" de forma puramente sexual (pessoas que tiveram relação antes do casamento ou que praticaram adultério) igonorando que no Evangelho uma pessoa pode ficar "impura" por mil outras razões (comer porco, por exemplo). Não consigo tirar da cabeça que a maioria esmagadora das vítimas foi de meninas, o que pode ser OUTRA distorção religiosa da cabeça dele, de que as mulheres como um todo são "impuras" (no judaísmo elas só ficam "impuras" no período de menstruação). Querem ver como isso é possível? Pesquisei no Google as palavras "mulheres impura" e um dos primeiros links me levou a um site que contém generalizações que acabam por englobar a mulher, em seu aspecto sensual, como IMPURA:



São sete pecados... O pecado da impureza, também conhecido pelo nome de “luxúria”, a princípio não parece ser muito venenoso. Ele vem disfarçado em beleza, em algo desejável e vantajoso.., o diabo embala a impureza como se fosse uma jóia preciosa, e a sua aparência tem iludido os homens mais fortes do mundo.

Pronto. O homem sem discernimento que ler isso (ainda mais um esquizofrênico passando por sérios problemas de rejeição) vai associar imediatamente a luxúria à mulher, e a mulher ao diabo. E continua:



A impureza tem a ver com todos os tipos de pecados relacionados com o sexo.

Ela está presente na vida de quem tem apreciação por revistas eróticas, ou filmes e programas de televisão desse tipo...

A impureza está presente no namoro com beijos, abraços e carícias íntimas, em locais públicos ou escondidos, ao ponto de levar o casal à excitação sexual.., isso é impureza!

A paixão por piscina ou praia, onde os homens vão interessados em ver mulheres sensuais e onde as mulheres vão interessadas em mostrar seus dotes físicos tentadores.., é impureza. Não é impuro frequentar piscina ou ir à praia, mas a motivação pode ser impura.

A impureza também está presente nas conversas com palavreados obscenos ou palavrões e em certos gestos do corpo.

Agora temos um prato cheio pra o fundamentalista olhar pela sua janela e apontar uma impura a cada 2 minutos. Nossa sociedade exala sensualidade, as roupas são mínimas, o jeito de andar das brasileiras é naturalmente sensual, e infelizmente essa sensualidade exarcebada chega cada vez mais com força em nossas crianças.



Sabe, o pecado de cor vermelha carmesim, hoje tem ganhado cores e zomba do moço e da moça que buscam uma vida pura e limpa...

No tempo da escravidão no nosso país, os escravos eram identificados pela marca do seu dono. Assim também acontece quando as pessoas se deixam dominar pelo pecado... as marcas dele ficam estampadas, bem nítidas, nos escravos do pecado.

Você sabe, alguns têm olhos vermelhos... outros têm olheiras, aquela cor cinza-azulado em volta dos olhos.., outros tem as bochechas do rosto inchadas...

Os que são escravos do pecado do orgulho, tem o sobranceiro levantado.., os que são escravos da impureza, tem o olhar lascivo, sensual, marcas bem nítidas de suas perversões...

WTF!? Agora os impuros podem ser identificados? A esquizofrenia aqui alcança seu apogeu. Primeiro com a diferenciação dos "moços que buscam uma vida pura e limpa" (lembram da carta?) e os impuros com certas "marcas" que deixam muito pra imaginação do louco que se identificar com esta paranóia.



Ninguém também deve subestimar o poder da impureza.

Sansão, o homem mais forte da História, brincou com a impureza... fez dela uma espécie de esporte, pensando que podia controlá-la.., mas acabou sendo controlado por ela, porque a impureza arruinou toda a sua vida.

O rei Davi também se deixou levar pelo engano da impureza, e num momento de fraqueza, foi dominado por ela... teve anos de vida muito tristes, até que se arrependeu e voltou para Deus.

Novamente, duas referências a mulheres, agora chamadas literalmente de "impurezas". E o único modo de se limpar das impurezas é aceitar Jesus.



O que Jesus acharia disso tudo? Olha, ele tem uma resposta:



"Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem.

(Mat 15:7-11)



Nada há fora do homem que, entrando nele, possa contaminá-lo; mas o que sai do homem, isso é que o contamina. [Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.] (...) Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios, a cobiça, as maldades, o dolo, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez; todas estas más coisas procedem de dentro e contaminam o homem.

(Mar 7:15-23)



Ou seja, não tem nada a ver com diabo, beleza, sedução, mulher, sexo, coisas EXTERNAS, mas sim do seu CORAÇÃO. Seus PENSAMENTOS. Se seus pensamentos gravitam em torno de quão impuro é seu vizinho gay, ou o quanto aquela mulher está "perdida" por se divertir na balada a chance de que os SEUS pensamentos impuros estejam deixando VOCÊ impuro é muito maior do que aquele que você está julgando ser de fato impuro. Nunca esqueça da soberba (listada ali em cima) e de que Jesus não julgou a mulher adúltera.



Outro fato digno de nota que distingue a natureza de Jesus da do Velho Testamento é no episódio de Elias, descrito em II Reis 1:9-12:



O rei Acazias adoeceu e pediu a mensageiros que fossem consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom, sobre sua saúde. Eis que Elias ficou sabendo e disse aos mensageiros: "Por acaso não existe Deus em Israel, pra você ir consultar o outro?". Então o rei enviou um capitão com cinqüenta soldados para buscar Elias, o tisbita. O capitão achou Elias, e ordenou dizendo: "Homem de deus, o rei diz: Desce conosco". Elias respondeu: "Se eu sou homem de Deus, desça fogo do céu, e te consuma a ti, e aos teus cinqüenta”. E desceu fogo do céu, e os consumiu. O rei mandou outro capitão com mais cinqüenta, e o episódio se repetiu. Morreram 102 pessoas inocentes, tudo pra provar que o Deus de Israel é quem devia ter sido consultado pelo rei, no lugar do deus do vizinho.



O que Jesus acha disso? Em Lucas 9:51-56 Jesus estava indo pra Jerusalém e enviou dois mensageiros na frente, pra lhe reservarem uma pousada numa aldeia de samaritanos. Ora, os samaritanos (que nem se consideram judeus) negam estadia a Jesus! Mas que despeito, pensam logo seus discípulos, Tiago e João. Como ousam? Tomados de brio, eles disseram a Jesus: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?" (como Elias também fez). Jesus, porém, repreendeu-os e disse: "Vocês não sabem qual tipo de espírito vocês são. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-las". E foram para outra aldeia.



Eu fui procurar no original grego pra conseguir essa frase em negrito na tradução mais próxima do fiel, pois sinto que ela possui uma profundidade pra se meditar por dias, meses, quiçá uma vida. Dois dos discípulos de Jesus, entre eles João, o evangelista (talvez o "discípulo mais amado" por Jesus), carregados de soberba, tramam contra a vida daqueles que, por crenças e pensamentos diferente dos deles, lhes negam alguma coisa que não lhes é de direito (importante frisar). Procuram invocar a ira de Deus contra os "infiéis", mas o que Jesus lhes diz? "Vocês não sabem qual tipo de espírito vocês são". Desmontou-os. De "Portadores da Vontade de Deus na Terra" a NADA em uma frase. Estavam completamente enganados... que bom que havia um Jesus ali para lhes dizer. E quantos aqui não?

Saindo da Matrix

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lady Gaga, Britney Spears, Shakira, Christina Aguilera.........

Lady Gaga, Britney Spears, Shakira, Christina Aguilera. Além de serem "cantoras" e loiras, qual a outra semelhança entre elas? Seus clipes, onde o sensual se confunde com o grotesco. Propositalmente.

A perversão do sexo não é algo novo; é tão velho quanto a humanidade, e segue a tendência do ser humano de perverter tudo. Boas idéias às vezes surgem disso, como duas mulheres besuntadas de óleo se agarrando num ringue de gel, mas a verdadeira perversão a que me refiro é a das IDÉIAS, conceitos, e não de posições ou preferências sexuais (então não adianta vir com bandeiras e defesa de movimentos, que não tem nada a ver com isso).

A gota d'água que me fez escrever isso foi o clipe da Christina Aguilera "Not Myself Tonight". Eu estou longe (muito longe) de ser um puritano, e confesso que a experiência de ver a Christina de calcinha vermelha foi maravilhosa, mas o saldo geral que ficou foi triste, uma saturação de imagens e situações que eu preferia não ter tido, ainda mais vendo um videoclipe. O último clipe da Lady Gaga foi como uma visita ao inferno, com ela de guia turístico. Não era sexy, não era atraente, então qual o atrativo aqui? Perversão? É isso que estamos cultivando como valores visuais, sociais e de promoção? (não vou falar de moral aqui, afinal clipes não são aulas de moral e cívica). É inegável que o entretenimento em massa exerce uma influência considerável na sociedade, especialmente nas novas gerações. Somos irmãos mais novos da Madonna, da sua fase "Vogue" e "Erotica", e hoje vemos ela ser imitada na MTV (algo que é publicamente reconhecido por todas essas cantoras listadas acima). Só que Madonna seguiu em frente: Ela teve fase sexy, espanhola, eletrônica, wicca, mãe-de-família, disco, etc. A imagem que Madonna passa é de uma mulher completa, bem resolvida, que curtiu tudo o que tinha de curtir e pode assumir qualquer faceta de sua personalidade.

E hoje, o que cultuamos? Uma fração do que Madonna foi, e potencializamos isso ao ponto do grotesco. A imagem que passa para as mulheres (especialmente as novinhas, que estão em formação de caráter e são "amamentadas" pela mídia) é a de que pra se impor é preciso ser uma dominatrix, ou seja, transbordando sexo pelos poros e com uma postura excessivamente MASCULINA. ISSO é perversão. Se formos buscar isso em Madonna vamos achar sua fase andrógina, com várias posturas masculinizadas (demonstrações de "força" e "poder") aqui e ali mas nunca uma caricatura como vemos hoje. Então não, isso não é uma homenagem à Madonna, isso não é uma libertação da mulher, na verdade isso não é nem uma mulher, e sim um subproduto grotesco da mídia que tem por trás o desejo de uma certa parcela dos produtores de conteúdo (que dominam o mundo da moda) de subtrair o verdadeiro poder e papel da mulher na sociedade.

Quando se diz o ditado "por trás de um grande homem tem sempre uma grande mulher" erroneamente se concebe um verdadeiro líder, viril, e uma mulher submissa e compreensiva que, com seu sacrifício, ajudou-o a estar ali. Quando crescemos e conhecemos a natureza feminina é que percebemos que ELA é quem o moldou (ou manipulou) para que ele chegasse ali (muitas vezes sem que ele o perceba). Seja como mãe, namorada, amiga ou esposa, a mulher é como um rio que, com sua força, marca a fundo a geografia masculina e nos irriga com vida e, às vezes, destruição. É uma potência divina, e como tal deve ser usada e dosada. Quando se PERVERTE essa energia (e não estou falando de sexo) estamos na verdade criando diques e desvios nesse rio que, sabemos, irão causar transtornos ao ecossistema e até mesmo a morte desse rio (e o Mar Morto é um exemplo dessa exploração errada).

Conheço adolescentes "criadas" por Britney Spears que acham legal se comportarem e se vestirem como prostitutas (embora não o sejam de fato). Numa fase onde a auto-afirmação é fator predominante e a personalidade está cristalizando, que tipo de gente estamos criando? Os japoneses são os reis da perversão. E são o exemplo mais pungente do sentido em que quero usar essa palavra. Primeiro, porque a sociedade CASTRA a sexualidade explícita japonesa em TODAS as mídias de forma cínica, que foca tão-somente nos órgãos genitais (o que já é uma perversão). O resultado é que os japoneses desenvolveram novas formas de explorar sua sexualidade graficamente, e com o passar do tempo o que era uma metáfora virou o objeto de adoração! Calcinhas usadas são mais valorizadas por eles que o "conteúdo", se é que você me entende. Os caras lá tem uma tara por tentáculos (isso mesmo, TENTÁCULOS de polvo! Freud explica) penetrando por todos os orifícios das mulheres. A mulher de lá, submissa culturalmente por milênios, até hoje é uma "vítima" do sexo e aprendeu a associar dor e violação como "prazer" no ato sexual. E tudo isso são perversões que vão destruindo o bom viver (se não acham, perguntem às japonesas molestadas nos metrôs) e corrompendo um dos pontos de maior sustentação de uma sociedade, que são as mulheres! Mas, mesmo com toda essa perversão, os japoneses ainda têm arraigados na sociedade a idéia de família e educação como base de lançamento para a vida. Nós, ocidentais, não temos. Então, o que será da gente?

Posso parecer um velho rabujento valorizando o passado, mas não é o caso. Adoro os tempos atuais, onde a pessoa pode ser o que ela QUER ser. Só não curto quando vejo que, mesmo num mundo aberto a tantas fontes de informação a manipulação da mídia continua atuando pra influenciar as pessoas a serem o que ela (a mídia) quer produzir. É como o cachorro correndo atrás do próprio rabo, onde o desejo alimenta a mídia, que alimenta (e cria) o desejo. E fica nisso! Não há novas aspirações no sentido de mudar o foco, apenas um desejo cada vez mais doentio! E novamente invoco a figura da Madonna (que estou usando propositalmente como a personificação da mulher), que acompanhou (diria até liderou) a libertação da mulher na sociedade machista e competitiva, e que soube se TORNAR um produto sem SER um produto. As músicas são um atestado dessa transformação/busca: O sofrimento e insegurança feminino em Borderline, a aceitação e inversão do papel de mulher-objeto em Material Girl, a ode à independência em Express Yourself, a transição da garotinha pra mãe em Papa don't preach, a dominatrix em Erotica, a valorização da elegância em Vogue, a instrospecção de The Power of goodbye, a tristeza de Take a bow,a fase TPM em What It Feels Like For A Girl e o pingo nos is de Human nature... enfim, várias facetas do feminino, sem se deter em nenhuma. Madonna é conhecida por ser um camaleão, mas o que é a mulher senão uma esfinge que, se não decifrarmos, nos devorará? (especialmente na TPM).


Ei você,
Lembre-se disso
Nada disso é real
Incluindo o jeito que você se sente

Primeiro ame a si mesmo
Então você pode amar alguém
Se você conseguir mudar alguém
Então você salvou alguém

(Madonna)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Rio




Certa vez perguntei ao compositor Antônio Nássara, genuíno filho da Rua Ibituruna, no Maracanã, como ele definia um bom carioca. Isso foi num tempo em que por aqui ainda havia políticos. Ele me respondeu:

— Bom carioca é o que aceita sem ressentimento o fato irremediável de que os bons empregos não foram feitos para ele. E que inútil é disputar com o filho ou o genro de um político mineiro os melhores cargos burocráticos. Uma boca pequena em qualquer repartição pública, onde não tenha que assinar ponto, lhe basta, é o suficiente para que se sinta realizado e agradecido a São Jorge.

Por sua vez, J. Carlos, o fabuloso chargista, costumava dizer que carioca legítimo é aquele que "tendo de resolver um problema urgente, adia-o para o dia seguinte, entre as 3 e 6 da tarde, chega às 8 e ainda bronqueia porque a pessoa com quem marcou encontro não o esperou".

E Marques Rebelo, carioca do Trapicheiro, escreveu que "o carioca está sempre pronto para se divertir, e o Rio, em verdade, não é mais que um imenso parque de diversões". Mas, acrescentava, "com que o carioca se diverte, mesmo, é com as coisas sérias".

A esses três julgamentos-definições, emitidos por inegáveis conhecedores do assunto, eu poderia enumerar uma série sem conta de características e marcas especiais que compõe essa singular criatura sorridente, urbana e versátil, engenhosa e sem complicações, ao mesmo tempo íntima e eqüidistante, esgarçada e vária, a quem se chama de carioca, ente de "alma estóica, sensual e carnavalesca" (Manuel Bandeira). Há quem diga, por exemplo, que carioca legítimo nunca foi ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado. Eu mesmo conheci pelo menos três, dos mais genuínos, que nunca lá estiveram: o citado Nássara, o pintor Di Cavalcanti, carioca da Rua Riachuelo, e Paulo Portela. Sei disso porque eles mesmos me contaram. Diz-se também que um bom carioca está sempre em dia com a geografia e a topografia da sua cidade, sabendo perfeitamente distinguir (sem que seja preciso recorrer ao livrojá clássico de Brasil Gérson) a Rua D. Mariana, em Botafogo, da Travessa Mariana, em Ramos; e não desconhece que a Rua da Coragem ("quem mora lá" — dizia Di Cavalcanti — "resiste ao calor local, o mais quente do Rio, abraçado à placa da rua") fica na Penha; a Rua Emerenciana, em São Cristóvão; e a Visc. de Abaeté, em Vila Isabel. Esse povo do Rio, do qual se afirma ser o mais tratável e lhano de todo o mundo, é, como se sabe, uma mistura feliz das mais diferentes tribos.

São tribos nacionais na maioria, que para cá emigraram e continuam emigrando; e, conseqüentemente, uma mistura também de virtudes e defeitos (serão mesmo defeitos?) que já existira aqui ou que para cá foi trazida pelas sucessivas levas migratórias e que muito raramente (na verdade não sei de outro exemplo) pode ser encontrada ao mesmo tempo, conjuntamente, numa pessoa ou mesmo numa população, como acontece com a gente carioca. Enumero de cabeça apenas alguns destes atributos, os mais flagrantes: irrefreável tendência para a vida mansa; bom humor intrínseco e extrínseco; naturalidade; impossibilidade física e mental de se deixar dirigir pelo relógio; alergia ao formalismo, ao dramalhão, à hipocrisia (não confundir com cinismo — às vezes, para safar-se, o carioca é de um cinismo que beira ao descaramento); desprendimento; solidariedade; imunização nata ("carioca já nasce pasteurizado", me disse uma madrugada Ari Barroso) contra a inveja e o ressentimento; improvisação; enraizado otimismo que às pessoas mais graves pode parecer irresponsabilidade — e muitas vezes o é; conversa fácil e colorida, mesmo quando quem fala é de poucas letras; espírito gregário (carioca não sabe viver sozinho); e muitos outros mais. Claro, não é todo carioca que possui todos esses defeitos e virtudes, ao mesmo tempo, mas o fato é que eles se combinam perfeitamente, como as contas de um rosário. E fazem do povo do Rio essa "gente que anda, dança, canta". E que, "entre os morros e as praias, faz a vida, com os altos e os baixos, e protesta, e ri e vê que, afinal, tudo está bom, e que mais valem todos os pássaros voando do que um só na mão..." (Álvaro Moreyra).

Levando em conta o rol de características cariocas acima enumeradas, e que somente a má-vontade e despeito (e como o Rio tem sido vítima dos dois!) poderiam negar, é evidente que a pergunta — O carioca é feliz? — pode ser respondida afirmativamente. Claro que é — está na cara, na dele, carioca, e na de sua cidade, moldura perfeita para a gente que a habita. E vou além: o carioca não é apenas feliz — mas se sente feliz, o que é ainda mais importante. A filosofia mais barata, a de cordel, ensina que existe uma grande diferença entre ser feliz e sentir-se feliz. Há por aí uma porção de gente que tem tudo para ser feliz — materialmente feliz —, a começar por dinheiro e saúde, e não o é. Já o carioca, que raramente tem tudo e quase sempre não tem nada, é um ser fisiologicamente feliz, como as crianças e os gatos — porque se sente feliz. Além dos predicados referidos, que fazem do carioca um ser que se sente feliz, há ainda um outro fator que, na minha opinião (opinião de quem já é carioca há décadas), torna possível esse sentimento de felicidade e lhe garante a perenidade. Refiro-me ao profundo, total entendimento entre o carioca e sua cidade. Os dois se compreendem perfeitamente, completam-se, um está entranhado no outro. Estabeleceu-se entre ambos um salutar estado de mútua complacência e de estima recíproca — milagroso status urbano que, pelo que sei por já ter visto ou ouvido dizer, não se encontra em nenhuma outra cidade do mundo do tamanho e da importância do Rio.

Essa suave atmosfera que se origina das tranqüilas e ternas relações de amizade entre o carioca e a cidade onde ele mora é que faz com que, no Rio, não só sua gente se sinta feliz e descontraída, mas igualmente todas as demais gentes que aqui aportam — de passagem ou para ficar. O Rio, como a crase do poeta Ferreira Gullar, não foi feito para humilhar ninguém. Foi feito para deixar as pessoas à vontade, despojando-as, sem que elas sintam inibições, reservas e preconceitos que aqui não têm nenhuma razão de ser. O Rio é a única cidade do Brasil onde o paulista desencabula e o mineiro toma partido. Além disso, e mercê do seu cosmopolitismo mental, que dela faz uma das metrópoles mais naturalmente civilizadas do mundo (civilização, aqui, no sentido de antiprovincianismo), o Rio é uma cidade que possui o raríssimo dom de não se espantar com coisa alguma, dom que nem Paris tem. A soberba também não é o seu forte. Feito, como queria Mem de Sá, para ser a Rainhas das Províncias. Isso o Rio tem sido e será sempre. Mas se não chegar a ser o empório das riquezas do mundo, como dela queria também o mesmo Mem de Sá, que as riquezas do mundo se lixem. Chicago (onde passei os dez dias mais opressivos de toda a minha vida, castigado ininterruptamente pelos gemidos gelados de um vento de filme de terror) está montada nelas e nem por isso é feliz. E não é por que não tem condições subjetivas para isso; falta-lhe, como em tantas outras cidades ricas, o que o Rio e os cariocas têm de sobra — competência para ser feliz. Voltando ao fator entendimento recíproco, que faz com que o Rio e o carioca se completem e se confundam, não sei se é preciso acrescentar aqui que o carioca só é integralmente feliz (e conseqüentemente alegre) nó Rio. Fora do seu habitat natural ele se transforma de maneira radical, como certas flores especiais tiradas da estufa protetora.

Como estas, longe do Rio o carioca murcha, perde a cor e o tom, azinhavra-se e enevoa-se, e se a ausência do habitat é mais demorada acaba por fenecer por completo. Por já ter visto com os próprios olhos, e um número sem conta de vezes, sei que não pode existir pessoa mais triste e sem graça do que o carioca exilado, mesmo que o exílio seja o mais confortável e bem-remunerado — em Paris, em Londres, em Nova Iorque, numa ilha grega ou em Papeete. Não adianta — longe do Rio, carioca não funciona. Perde o viço e, rendido e indefeso, deixa que dentro de si um lamentável, doentio e suspiroso estado de espírito tome o lugar da sadia e espontânea alegria que foi expulsa; essa alegria que é a sua marca especial e inimitável, a que melhor o define e o destaca em meio ao vário rebanho humano. Ainda na semana passada, em São Paulo, surpreendi num dos esplêndidos bares da cidade um grupo de jornalistas cariocas, todos meus velhos conhecidos, que eu sabia terem trocado por magníficos, irresistíveis salários as amenidades da beira de praia carioca. Do canto do bar, fiquei a olhá-los por alguns minutos. Lá estavam eles bebendo o uísque de classe (25 cruzeiros a dose), elegantes e bem-postos em seus ternos bem cortados. Que tristeza em seus olhos! Que tédio mortal em seus gestos! Apagados, murchos, via-se que bebiam e comiam sem prazer; e não falavam; e quando falavam era aos cochichos, como num velório. Quem os viu e quem os vê, pensei comigo mesmo, e meu primeiro impulso foi o de me juntar a eles e, com a ajuda do brasonado uísque que estavam bebendo, alegrar um pouco aquela ciciante missa de sétimo dia. Mas achei melhor não. Era muita tristeza (a deles) para uma alegria só (a minha).

À semelhança da esmagadora maioria dos cariocas, sinto-me perfeitamente feliz nesta cidade. Aqui cheguei numa tórrida manhã de fevereiro (mais precisamente, na manhã do dia 13 de fevereiro de 1937), vindo pelo Itagiba, simpático ferro-velho que os alemães iriam afundar, cinco anos depois, exatamente na boca do rio Real, lugar onde acaba Sergipe e começa o resto do mundo. Quando desembarquei no Armazém 13 (numerozinho jóia!) tinha de mim 18 anos incompletos, 200 mil réis e uma carta de apresentação para um figurão federal, carta que, aliás, nunca foi entregue, pois o destinatário mandava dizer sempre que não estava quando eu ia procurá-lo (já morreu o infeliz, e que a terra lhe seja leve.) Vim — e aqui estou. O meu querido Paulo Mendes Campos escreveu certa vez, e acertou em cheio, que "o carioca tem o gosto e o dom de igualar os homens, de refugar as sofisticações, de considerar apenas em cada pessoa, independente de qualquer valor, a sua capacidade de convívio". Sem querer ser imodesto, acho que sou também mais ou menos assim. Como igualmente me repugna, como ao Rio, na citação de PMC, "qualquer pose ou afetação". De forma que sendo o Rio como é e sendo eu como sou, nosso convívio tem sido bastante fácil — e só não é mais por culpa exclusiva minha, que às vezes engrosso sem motivo. Mas isso só se dá quando, movido por incontroláveis impulsos telúricos, deixo por alguns instantes de ser carioca e volto a ser nordestino. O que, graças a Deus, vem acontecendo cada vez mais raramente.


Joel Silveira é sergipano de Aracajú, onde nasceu em 23 de setembro de 1918. Veio para o Rio em 1937, tendo se destacado como jornalista e escritor. Tem hoje cerca de 40 livros publicados. Foi agraciado com o prêmio "Machado de Assis", o mais importante da Academia Brasileira de Letras, em 1998, pelo conjunto de sua obra. Foi também ganhador dos prêmios "Líbero Badaró", "Prêmio Esso Especial", "Prêmio Jabuti" e o "Golfinho de Ouro".

O escritor e jornalista faleceu no dia 15 de agosto de 2007 na cidade do Rio de Janeiro.


Texto extraído do livro "
Memórias de Alegria", Editora Muad — Rio de Janeiro, 2001, pág. 131.

Ferreira Gullar



Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos

Dona Doida


Adélia Prado


Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.


O texto acima foi extraído do livro "
Poesia Reunida", Editora Siciliano - 1991, São Paulo, página 108.

Que valha a pena


O jovem contemplava o oceano no convés de um navio cargueiro, quando uma onda inesperada o atirou no mar. Depois de muito esforço, um marinheiro conseguiu resgatá-lo.

“Obrigado por salvar minha vida”, disse o rapaz.

“Tudo bem”, respondeu o marinheiro. “Mas procure vivê-la como algo que valeu a pena salvar”.

Os tesouros



O mestre sufi Abu Muhammad al-Jurayry costumava dizer:
— A religião possui dez tesouros, que nos enriquecem. São cinco interiores e cinco exteriores; todos aqueles que seguem o caminho espiritual devem estar conscientes disto.

“Eis os tesouros interiores: capacidade de ser verdadeiro, despreocupação com os nossos bens, humildade na aparência, equilíbrio para evitar dificuldades com os outros, e força para reagir”.

“Eis os tesouros exteriores: descobrir um Amor supremo, despertar o desejo de estar junto a este Amor, ter inteligência para ver as próprias faltas, estar consciente de tudo que acontece na vida, e ser grato pelas bênçãos recebidas”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Espiritualidade Budista e a Sombra Psicológica.....

"A Espiritualidade Budista e a Sombra Psicológica e suas Relações com a Educação e Formação Humana parte 1"


Irei propor a todos nós uma reflexão e associação entre Budismo, Psicologia e Educação. De início, são áreas da vida que me interesso por terem contribuições para a formação humanamente humana.

Mas por que Budismo e não outra filosofia oriental, ou mesmo ocidental?

Na Psicologia Clínica existem abordagens de conhecimento que podem e devem ser utilizadas para melhor compreensão do ser humano. Muitos Psicólogos Clínicos, originalmente treinados nas abordagens ocidentais de psicoterapia, têm sido atraídos pelo caráter introspectivo da "psicologia budista", que é vista como um suporte capaz de auxiliar o homem em sua busca do significado da vida e, na tentativa de compreensão de si mesmo, da mente e da natureza da experiência.

A Psicoterapia Transpessoal é uma delas, e decorre de uma expansão ou ampliação do campo da pesquisa psicológica. Tem sido profundamente influenciada pelo Budismo, um dos mais antigos sistemas médico-filosóficos conhecidos, cujo conteúdo ético, religioso e espiritual é de grande profundidade. Porém, inicialmente irei expor as interlocuções entre Budismo e Educação, posteriormente incluindo como a Psicologia foi se apropriando de novos olhares para integrar o ser humano.

Para uma compreensão adequada das possíveis contribuições do budismo à educação é necessário que noções centrais de ambos os campos sejam desenvolvidas. Não se pode pensar na educação, quer do ponto de vista teórico, quer do prático, sem pressupor que a mesma está fundada na admissão de que o ser humano deve atingir uma determinada condição que ainda não se encontra desenvolvida, atualizada ou presente. Segundo o Prof. Dr. Policarpo Junior, o significado de "Educação", em sua forma profunda e ampla, é trazer de dentro para fora, é saber conviver consigo mesmo e com os outros, tendo aí uma contribuição grega, no qual crescer significa crescer juntos, com todos, com a própria polis.

A ciência sofreu, ao longo dos séculos, uma conversão progressiva ao estudo daquilo que é, ou seja, do que existe independentemente do sujeito, e que está despido de toda consideração quanto ao que deve ser. Assim, para fazer referência apenas às últimas décadas, algumas das finalidades educativas apregoadas com muita influência no Brasil foram: a produção de capital humano, a revolução ou transformação social, a formação para a democracia, a cidadania, as competências e a formação do sujeito aprendente (este último principalmente e quase unicamente, e olhem que nem estou me referindo às escolas públicas). Não se deve negar a pertinência de nenhum desses objetivos, nem mesmo sua relação determinada com a tarefa educativa. No entanto, é importante reconhecer que todas essas finalidades se originam de preocupações exteriores à educação, ou de outros campos de saber - como a economia, sociologia, ciência política, psicologia - que não a própria educação. A teorização sobre o educar muitas vezes termina por consagrar a subordinação da educação aos ditames sociais e culturais, legitimando assim a falsificação do conceito e da prática educacionais.

Porém, a dimensão do conhecimento e seu princípio orientador é a busca da verdade (ou deveria ser). Tal princípio está também relacionado à condição da vida humana. Educar para o Amor seria, então, o maior desafio a se conseguir na Educação; e, caso se consiga isto, o objetivo da educação como "Conviver consigo mesmo e com os outros" terá sido alcançado.

Mas, como os homens em meio ao mundo encontram-se ainda na imperfeição - e em um estado que por si só justifica a existência da educação - esta própria finalidade existente acima não pode, portanto, constituir-se em representante final e exclusiva do critério da utilidade, porque aquilo que se configura útil no estado atual não necessariamente reveste-se do sentido daquela utilidade aliada à busca da verdade. Então a dimensão a ser ressaltada na educação, como teoria e prática formativas da humanidade no homem, deve ser o exercício da introspecção.

Quando a vida pessoal é vivida com sabedoria, a tendência é perceber que, de fato, não há separação entre introspecção e ação no mundo. Por meio da auto-reflexão, isto é, os hábitos mentais e comportamentais, os sentimentos e emoções podem se tornar progressivamente mais conhecidos, e com isso é possível que o indivíduo transforme seus limites, fraquezas, medos, potencialidades e virtudes em algo familiar, refletindo sobre eles e passando de fato a conhecê-los (e não apenas vivendo como seu refém). Em outras palavras, em Psicologia Transpessoal, isso significa integrar a sua sombra. Por intermédio desse exame interno minucioso e freqüente, torna-se possível à pessoa contemplar com serenidade suas atitudes e hábitos mentais, e gradualmente agir de acordo com os princípios da própria auto-reflexão e contemplação; e, embora a coerência não seja atingida imediatamente, surgirá aos poucos a percepção clara dos aspectos pessoais que resistem a se integrar, a fim de que a pessoa possa vir a aceitar-se como é, e assumir de fato a direção de si com plena lucidez, compreensão e coerência. A partir dessa integridade surge a idéia de uma unificação progressiva consigo mesmo (individuação), compreendida como o processo de superação contínua das diversas cisões interiores, o que permite que se dissipem muitas das oposições antes consideradas como conflito, como observou Carl Jung em seus estudos.

Os aspectos vistos até aqui referem-se à formação humana, aqui entendida como a idéia de que a humanização é um processo. Nosso nascimento biológico, e mesmo as diversas formas de socialização universalmente disponíveis não são, por si só, garantia de realização puramente humana. Formação humana é um modo próprio de viver que se constitui pelo reconhecimento dignificante em relação aos outros seres humanos e à natureza, de modo a ter atitudes de compromisso, respeito e cuidado nos âmbitos pessoais, interpessoais, comunitários, sociais, naturais e ambientais.

Para o budismo, o entendimento da formação humana consiste na dissolução progressiva da ignorância básica dos seres. Para essa tradição, a natureza fundamental de todos os entes permanece pura, compassiva, amorosa e equânime, em meio às suas inúmeras ignorâncias, de um modo completo, inalterado e incessante. Para facilitar a compreensão e permitir a comparação dos elementos pertencentes a tradição budista com o escrito acima, é preciso pontuar algumas observações sobre o budismo e as contribuições que poderia ter nas escolas ocidentais, assim como as orientais:

A primeira observação budista refere-se ao sofrimento universal dos seres humanos e não-humanos. Esse entendimento alcançado pelo Buda antes mesmo de atingir sua liberação completa foi o principal motivo que o moveu em sua jornada espiritual de autodescobrimento. O Buda descobriu que o sofrimento alimenta-se de causalidades surgidas da ignorância dos seres quanto a sua natureza intrínseca; no entanto, se estes conseguissem reconhecer tal natureza e nela repousassem com estabilidade, poderiam superar seus enganos e remover as causas desses sofrimentos.

Ao reconhecer a profundidade da origem do sofrimento, a tendência dos ensinamentos budistas é de nutrir um sentimento de compaixão pelos seres, por compreender a condição de igualdade entre aquele que sobre isso reflete e todos os demais seres. Nas palavras do Dalai Lama, essa compreensão aparece como a base da compreensão e agir éticos, que não precisam estar associados a nenhum credo ou tradição, mas podem plenamente ser a base de uma ética leiga, a qual se afirma do seguinte modo: "Todos os seres têm o mesmo direito à felicidade e à libertação do sofrimento".

Dessa forma, ato de reconhecer, acolher e contemplar a condição de sofrimento de todos os seres e seu desejo de felicidade proporciona o desenvolvimento do sentido de igualdade e o surgimento de um sentimento compartilhado: a compaixão. Assim como naturalmente, sem nenhum esforço, qualquer um é capaz de se comover com um amigo ou parente que sofre, ou alegrar-se com seu êxito, do mesmo modo a identificação pessoal e vivenciada com a condição universal dos seres para experimentarem o sofrimento ou a felicidade, que é o pressuposto segundo o qual, de acordo com o ensinamento budista, se pode nutrir uma compaixão progressivamente equânime e profunda para com todos. Assim, a compaixão é o resultado verdadeiro da realização do princípio da igualdade, na tradição budista.

Outra dimensão observada pelo budismo é a da verdade. O tema da verdade é de grande complexidade em todas as tradições filosóficas, e no budismo não se constitui exceção. De acordo com o Prof. Dr. Aurino Lima, a educação formal ocidental prioriza os ensinamentos escolares como a verdade única, impedindo a ampliação para o sentir, e para outros ensinamentos que não aqueles passados pelo professor na escola.

Na maioria das escolas de filosofia budista se reconhece a existência de duas verdades: uma verdade absoluta e uma verdade relativa. Também há variações no entendimento dos sentidos dessas verdades de escola para escola. Adotam-se aqui, entretanto, os sentidos das verdades relativa e absoluta tais como foram concebidos e propagados pela escola de pensamento Mahayana, ou Grande Veículo, não é só uma escola de pensamento, mas uma grande forma ou princípio de entendimento e prática do budismo. Foi assim considerada por admitir a inseparabilidade entre a iluminação e a compaixão verdadeira. O praticante mahayana faz votos de não buscar a iluminação para si, mas para a liberação de todos os seres.');" onmouseout="nd();">Mahayana e a escola Madhyamika (ou Madhyamaka), que teve como seu fundador um dos maiores expoentes, o mestre espiritual e erudito Nagarjuna. Por meio da compreensão da natureza absoluta e de sua permanente inspiração na vida pessoal e social, o budismo admite que os seres podem finalmente se liberar das causas do sofrimento.

Todos admitem sem questionamento a realidade independente do mundo, das coisas e seres a sua volta. A própria ciência é uma criação sofisticada, que consiste em demonstrar de forma inequívoca a natureza e as propriedades das coisas e fenômenos de um ponto de vista fundamentalmente objetivo, isto é, de um modo que não se restrinja a simples opinião ou preferência. Neste âmbito existe a verdade relativa. Esta se refere, portanto, a um mundo convencional.

Com o fato de os seres humanos poderem visualizar, compreender, apreciar e interagir com o mundo através da sua sensorialidade e estrutura mental, é possível operar a distinção entre erro e acerto, entre verdade e falsidade. No entanto não é preciso muita reflexão para discernir que tal verdade é relativa à experiência humana, e possível apenas em determinados tempos históricos e contextos culturais. Essa análise da verdade relativa, para o budismo, não se aplica apenas aos objetos materiais, mas igualmente às sensações, percepções, pensamentos, formulações abstratas e ao próprio "eu" humano. Assim, a sensação humana de frio ou calor é totalmente relativa. Aqui nem cabe ressaltar o quanto as emoções e a mente são passíveis de relatividade. Mas, em síntese: corporeidade, emoções e pensamentos não gozam de existência intrínseca, e nenhum deles em particular pode definir a natureza do "eu".

Onde se poderia, portanto, encontrar o aspecto da verdade absoluta?

Admitindo-se que toda dualidade entre sujeito e objeto, sejam eles quais forem, significa uma verdade relativa, conclui-se que a verdade absoluta ou última não é algo que possa ser encontrado dessa maneira. A verdade absoluta pode ser experimentada pela percepção não-dual, mas ela mesma não se restringe à experiência. A verdade absoluta é algo que não pode ser apreendida de forma independente da experiência ou da condição do próprio observador. Assim, a verdade absoluta é a própria condição, sem condições, do surgimento dos fenômenos; a dimensão sem-dimensão do surgimento de sujeito e objeto; a vacuidade de fenômenos que também se expressa nos próprios fenômenos. Surgir, estabilizar-se e extinguir-se são aspectos da natureza relativa, que, no entanto, se sustenta na natureza absoluta: que não nasce, não se estabiliza nem se desestabiliza, nem morre. Apenas É.

O principal motivo da compreensão e estabilização da verdade absoluta tem por meta a ação desapegada e compassiva em meio ao mundo e aos seres, visando o bem-estar de todos eles, os quais também são a expressão da verdade absoluta.

Nota-se assim que os ensinamentos budistas - embora utilizando linguagem distinta das teorias clássicas da educação no ocidente - convergem em seus princípios com a meta educacional. Mais do que simples coincidência, tal convergência parece surgir devido à natureza do objeto educacional, que é a formação humana. Desse modo, o fundamental para o âmbito educativo não parece ser a contribuição de uma tradição ou teoria em particular, mas, principalmente, a clareza sobre os princípios que configuram a natureza do educar. Sem estes, a própria idéia de possíveis contribuições de outros campos teóricos, científicos ou espirituais pode mais atrapalhar do que trazer benefícios à teoria e à prática da formação humana, ou seja, a Educação.

Fontes:
Palestra: A Espiritualidade Budista e a Sombra Psicológica e suas Relações com a Educação do Prof. Dr. Aurino Lima Ferreira e Prof. Dr. José Policarpo Júnior dois fundadores do Núcleo de Pesquisa em Educação e Espiritualidade na UFPE. Palestra ministrada no Espaço Cultural Cor do Coque Instituto de Formação Humana, 17 de Setembro de 2009.
IFH: Instituto de Formação Humana
DALAI LAMA, XIV. O Caminho para a liberdade. Tradução: Beatriz Penna. Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 2003.
PADMA SAMTEN, Lama. 2000. Os Doze elos da originação interdependente. (Ensinamentos orais transmitidos em agosto e dezembro de 2000, na Fundação Peirópolis, e em Guarulhos, SP, transcritos por Eliane Steingruber). São Paulo: mimeo.
POLICARPO JUNIOR, José. 2004. A Individualidade - concepção negativa e positiva, segundo o budismo

sábado, 3 de outubro de 2009

A gnose

A gnose das correntes esotéricas possui dois traços bem característicos. Por um lado, abole a distinção entre fé e conhecimento (a fé não é mais necessária, a partir do momento em que se sabe); por outro, supostamente possui uma função soteriológica, isto é, contribui para a evolução individual daquele que a pratica. O termo gnose serve para designar tanto essa própria atitude espiritual e intelectual quanto os corpus de referência que a ilustram.
(Antoine Faivre)


    Hans Zimmer - Chevaliers De Sangreal

Por Stephan A. Hoeller (contribuição do Coringa)

As palavras gnóstico e gnosticismo não são exatamente comuns no vocabulário dos nossos contemporâneos. De fato, há mais pessoas familiarizadas com o antônimo de gnóstico, isto é, "agnóstico"; literalmente, esse termo significa um desconhecedor ou ignorante, mas em sentido figurativo descreve uma pessoa sem fé religiosa, que não se ressente de ser chamada de ateísta. No entanto os gnósticos já existiam muito antes dos agnósticos, e, na maioria, parecem ter representado uma classe muito mais interessante que o último grupo. Em oposição aos não-conhecedores, eles se consideravam conhecedores - gnostikoi, em grego - denotando aqueles que possuem a gnose ou o conhecimento. Os gnósticos viveram, na maior parte, durante os três ou quatro primeiros séculos da Era Cristã. Em geral, provavelmente eles não teriam se autodenominado "gnósticos"; teriam se considerado cristãos, ou mais raramente judeus, ou ainda seguidores das tradições dos antigos cultos do Egito, da Babilônia, da Grécia e de Roma. Não eram sectários nem membros de uma nova religião específica, como queriam seus detratores, mas pessoas que compartilhavam entre si certa atitude perante a vida. Pode-se dizer que essa atitude consistia na convicção de que o conhecimento direto, pessoal e absoluto das verdades autênticas da existência é acessível aos seres humanos, e, mais ainda, que a obtenção de tal conhecimento deve sempre constituir a suprema realização da vida humana.

Esse conhecimento ou Gnose não era concebido como um saber racional de natureza científica, ou mesmo um saber filosófico da verdade, mas um conhecimento que brota no coração de forma misteriosa e intuitiva, sendo, portanto, chamado em pelo menos uma obra gnóstica (o Evangelho da Verdade) de Gnosis Kardias (o conhecimento do coração). Trata-se, é claro, de um conceito que é ao mesmo tempo religioso e altamente psicológico, pois o significado, o propósito da vida não aparece então nem como a fé - com sua ênfase na crença cega, e na também cega repressão - nem como as ações, com sua extrovertida orientação para as boas ações, mas sim como uma transformação e uma visão interior; em suma, um processo ligado à psicologia profunda.

Se passarmos a considerar os gnósticos como os primeiros profissionais da psicologia profunda, torna-se imediatamente aparente a razão pela qual a prática e o ensinamento gnóstico, de forma radical, diferia da prática e do ensinamento da ortodoxia cristã e judaica. O conhecimento do coração, em favor do qual os gnósticos se empenhavam não podia ser adquirido por meio de uma barganha com Jeová, ou através de um tratado ou aliança que garantisse bem-estar espiritual e físico ao homem, em troca do cumprimento servil de um conjunto de regras. Da mesma forma, não se poderia obter a Gnose pela mera crença fervorosa de que a atitude de sacrifício de um homem divino na história pudesse aliviar a carga de culpa e frustração de nossos ombros e assegurar bem-aventurança perpétua, além dos limites da existência mortal. Os gnósticos não negaram o benefício do Torá nem a magnificência da figura de Cristo, o ungido do Deus supremo. Eles consideravam a Lei necessária a um certo tipo de personalidade, que precisa de regras para o que atualmente poderíamos chamar de "a formação e o fortalecimento do ego psicológico". Também não negaram a importância da missão do personagem misterioso que, em seu disfarce, era conhecido pelos homens como o rabino Joshua de Nazaré. A Lei e o Salvador, os dois mais reverenciados conceitos de judeus e cristãos tornam-se, para os gnósticos, apenas meios para um fim maior que esses mesmos conceitos. Eles configuravam incentivos e artifícios, de alguma forma capazes de conduzir ao conhecimento pessoal que, uma vez obtido, prescinde tanto da lei como da fé. Para eles, como para Carl Jung muitos séculos depois, a teologia e a ética constituíam apenas pontos de partida no caminho do autoconhecimento.

Dezessete ou dezoito séculos separam-nos dos gnósticos. Durante esse período, o gnosticismo tornou-se não apenas uma fé esquecida (como um de seus intérpretes, G. R. S. Mead, chamou-o), mas também uma fé e uma verdade reprimidas. Aparentemente, quase nenhum outro grupo foi temido e odiado de forma tão incansável e persistente, por quase dois milênios, quanto os infelizes gnósticos. Textos de teologia ainda se referem a eles como os primeiros e mais perniciosos de todos os hereges, e a era do ecumenismo não lhes parece ter estendido nenhum dos benefícios do amor cristão. Muito antes de Hitler, o imperador Constantino e seu cruel episcopado iniciaram a prática do genocídio religioso contra os gnósticos, sendo esses primeiros holocaustos seguidos por muitos outros no decorrer da história. A última grande perseguição terminou com o sacrifício de aproximadamente duzentos gnósticos em 1244, no castelo de Montségur, na França, um acontecimento que Laurence Durell descreveu como "as Termópilas da alma Gnóstica". Apesar disso, alguns proeminentes representantes das vítimas do último holocausto não consideraram a minoria religiosa mais perseguida da história como companheira de infortúnio, como indicam os ataques de Martin Buber a Jung e ao gnosticismo. Judeus e cristãos, católicos, protestantes e os ortodoxos orientais (e, no caso da Gnose Maniqueísta, até os zoroastristas, os muçulmanos e os budistas) odiaram e perseguiram os gnósticos com persistente determinação.

Por quê? Seria apenas porque seu antinomianismo ou sua desconsideração pela lei moral escandalizava os rabinos, ou porque suas dúvidas relativas à encarnação física de Jesus e sua reinterpretação da ressurreição enfurecia os sacerdotes? Seria porque eles rejeitavam o casamento e a procriação, como afirmam alguns de seus detratores? Eram eles detestados devido a licenciosidades e orgias, como alegam outros? Ou poderia ocorrer que os gnósticos realmente tivessem algum conhecimento, e que esse conhecimento os tornasse sumamente perigosos às instituições, tanto seculares como eclesiásticas?

Não é fácil responder a essa indagação; contudo, deve-se fazer uma tentativa. Poderíamos ensaiar uma resposta dizendo que os gnósticos diferiam da maior parte da humanidade, não apenas em detalhes de crença ou de preceitos éticos, porém em sua visão mais essencial e fundamental da existência e de seu propósito. Sua divergência era "radical" no sentido mais exato da palavra, por reportar-se à raiz (latim: radix) das atitudes e conjeturas da humanidade com respeito à vida. Independentemente de suas crenças filosóficas e religiosas, a maioria das pessoas acalenta certas suposições inconscientes, pertencentes à condição humana, que não originam das atividades convergentes de formulação da consciência, mas que irradiam de um profundo e inconsciente substrato da mente. Essa mente é regida pela biologia, e não pela psicologia; ela é automática, e não está sujeita a escolhas conscientes nem a percepções. A mais importante dessas suposições, a qual poder-se-ia dizer que sintetiza todas as outras, consiste na crença de que o mundo é bom e que o nosso envolvimento nele é de alguma forma desejável e fundamentalmente benéfico. Essa premissa conduz a inúmeras outras, todas mais ou menos caracterizadas pela submissão às condições externas e às leis que parecem governá-las. A despeito dos incontáveis acontecimentos incoerentes e maléficos em nossas vidas, dos incríveis fatos que se sucedem, dos desvios das reiteradas insanidades da história humana, tanto coletiva como individualmente, acreditaremos ser nossa incumbência prosseguir com o mundo, pois ele é, afinal, o mundo de Deus, devendo, portanto, haver significado e bondade ocultos em seus processos, mesmo que seja difícil discerni-los. Assim, devemos continuar no cumprimento de nosso papel dentro do sistema, da melhor maneira possível, sendo filhos obedientes, maridos zelosos, esposas respeitosas, bem-comportados açougueiros, padeiros, fabricantes de velas, esperando contra toda a esperança, que uma revelação do significado resulte, de algum modo, dessa vida de resignação sem sentido.

Não é assim, disseram os gnósticos. Dinheiro, poder, governo, constituição de famílias, pagamento de impostos, a infinita série de armadilhas das circunstâncias e obrigações - nada disso foi jamais rejeitado tão total e inequivocamente na história humana como pelos gnósticos. Estes nunca esperaram que alguma revolução política ou econômica pudesse ou devesse eliminar todos os elementos iníquos do sistema em que a alma humana encontra-se aprisionada. Sua rejeição não se referia a um governo ou sistema de propriedade em favor de outro; ao contrário, dizia respeito à total e predominante sistematização da vida e da experiência. Portanto, os gnósticos eram, na verdade, conhecedores de um segredo tão fatal e terrível que os governantes deste mundo - i.e., os poderes secular e religioso, que sempre lucraram com os sistemas estabelecidos da sociedade - não podiam permitir ver esse segredo conhecido, e muito menos tê-lo publicamente proclamado em seus domínios. De fato, os gnósticos sabiam algo: a vida humana não alcança a sua realização dentro das estruturas e instituições da sociedade, porque estas representam, na melhor das hipóteses, apenas obscuras projeções de outra realidade mais fundamental. Ninguém atinge sua verdadeira natureza individual sendo o que a sociedade espera nem fazendo o que ela deseja. Família, sociedade, igreja, ocupação e profissão, lealdade patriótica e política, bem como regras e normas morais e éticas, na realidade de modo algum conduzem ao verdadeiro bem-estar espiritual da alma humana. Ao contrário, constituem, com maior freqüência, as próprias algemas que nos alienam de nosso real destino espiritual.

Esse aspecto do gnosticismo foi considerado herético em épocas passadas e até hoje costuma ser chamado de "negação do mundo" e "anti-vida"; porém constitui, obviamente, nada mais que boa psicologia e boa teologia espiritual, por se tratar de bom senso. O político e o filósofo social podem considerar o mundo um problema a ser resolvido, mas o gnóstico, com seu discernimento psicológico, reconhece-o como uma condição da qual precisamos nos libertar pela visão interior. Isso porque os gnósticos, como os psicólogos, não buscam a transformação do mundo, mas a transformação da mente, com sua consequência natural - uma mudança de postura perante o mundo. A maior parte das religiões também tende a ratificar uma atitude familiar de interiorização na teoria; contudo, como resultado de sua presença dentro das instituições da sociedade, elas sempre negam isso na prática. As religiões costumam se iniciar como movimentos de libertação radical seguindo linhas espirituais mas, inevitavelmente, terminam como pilares das próprias sociedades, as carcereiras de nossas almas.

Se desejamos obter a Gnose, o conhecimento do coração que liberta os seres humanos, devemos nos desvencilhar do falso cosmo criado pela nossa mente condicionada. A palavra grega Kosmos, bem como o vocábulo hebraico Olam, embora quase sempre mal traduzidos como Mundo, realmente designam mais o conceito de Sistemas. Quando os gnósticos diziam que o "sistema" à sua volta era mau e que precisaríamos sair dele para conhecer a verdade e descobrir o seu significado, comportavam-se não só como precursores de inúmeros alienados da sociedade - de São Francis de Assis até os Beatniks e os Hippies - mas também exprimiam um fato psicológico desde então redescoberto pela moderna psicologia profunda: Jung reafirmou uma antiga percepção gnóstica ao dizer que o extrovertido ego humano deve, em primeiro lugar, tomar plena consciência de sua própria alienação do "Self Superior" antes de poder começar a retornar ao estado de união mais íntima com o inconsciente. Até nos conscientizarmos inteiramente da inadequação de nosso estado de extroversão e de sua insuficiência quanto às nossas necessidades espirituais mais profundas, não obteremos nenhum grau sequer de individuação, através da qual uma personalidade mais madura e ampla surge. O ego alienado é o precursor e uma pré-condição inevitável do ego individualizado.

Como Jung, os gnósticos não rejeitavam necessariamente a Terra per se, mas a reconheciam como uma tela sobre a qual o Demiurgo projeta seu sistema ilusório. Quando nos deparamos com uma condenação do mundo nos escritos gnósticos, o termo usado é fatalmente Ordem, organização.');" onmouseout="nd();">Kosmos ou Este eon, e nunca a palavra Ge (Terra), que consideravam neutra, se não totalmente satisfatória.

Era desse conhecimento - o conhecimento que se tem no próprio coração a respeito da inutilidade espiritual e absoluta insuficiência das instituições e valores estabelecidos do mundo exterior - que os gnósticos valiam-se para construir tanto uma imagem de ser universal como um sistema de inferências coerentes a serem extraídas dessa imagem (Como era de esperar, eles o realizaram não tanto em termos de filosofia e teologia, mas em termos de mito, ritual e cultivo das qualidades imaginativas e mitopoéticas da alma). Como muitas outras pessoas inteligentes e sensíveis, antes e depois de sua época, eles se sentiram estrangeiros num país desconhecido, uma semente abandonada dos mundos distantes de luz infinita. Alguns, tal como a juventude alienada dos anos 60, retiraram-se para comunidades e eremitérios à margem da civilização. Outros, mais numerosos talvez, permaneceram em meio à vasta cultura metropolitana das grandes cidades, como Alexandria e Roma, aparentemente desempenhando seus papéis na sociedade, enquanto no íntimo serviam a um mestre diferente - no mundo, mas não do mundo. A maioria deles tinha instrução, cultura e riqueza; entretanto, continuavam conscientes do inegável fato de que todas essas realizações e tesouros perdem a cor perante a Gnose do coração, o conhecimento do que existe. Não surpreende que o mago de Küstnacht, que desde sua primeira infância buscou e encontrou a própria Gnose, tivesse afinidade com esse povo estranho e solitário, esses peregrinos da eternidade, prontos para voltar ao lar entre as estrelas.

Referência:
A Gnose de Jung e os sete sermões aos mortos;
The Gnostic society bookstore;
Imagens: Carl Jung: The Holy Grail of the Unconscious (The New York Times)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

100 anos de José Antonio da Silva


100 anos de José Antonio da Silva , o pintor mais naïf e primitivista de todos os tempos


José Antonio da Silva ao lado do polêmico vereador João Benvindo, que lhe rendeu as homenagens de Cidadão Honorário pela Câmara de São José do Rio Preto e abaixo caricatura de Lézio Junior






Desde o começo do mês venho inserindo obras deste extraordinário pintor, poeta, escritor juntamente com poesias, poemas relacionados a mulher, homenageadas este mês pelo seu dia internacional. José Antonio da Silva tem uma vasta obra que seria impossível deste modesto blog inserir todas, publiquei algumas somente para que meu leitor tenha uma idéia de seus traços e o estilo naïf e seu modo de viver.


Neste
quadro
ao lado
a pintura
de sua
mãe
Brasilina
e as
vibrantes
cores que
predomina
em todos
seus
trabalhos.